quarta-feira, agosto 27, 2008

Veraneantes e turistas de pé descalço

As férias já lá vão.
Foram curtas, como sempre.
Ao contrário de muitos portugueses, normalmente vou para o mesmo local passar os meus merecidos (?) dias de descanso, para não variar, fazendo uma praiazinha lá para os lados do Sotavento algarvio. Razão: não sou rico para ir para “Piunta Cana”, como muitos.
Apesar de adorar aquela zona, confesso que já não tem tanta “piada” como tinha à uns anos atrás. Sim, apesar de não estarmos a ficar mais novos, e de uma das razões ser essa mesmo, a de que as férias tinham aquele sal e pimenta nos verdes anos e agora como já sou cota, vimos aquilo com outros olhos.
Tudo isto é verdade – já lá vão os tempos em que passávamos as noites numa discoteca de praia a curtir o som e as miúdas (produto nacional ou estrangeiro – a música, claro J). Depois lá fingíamos que dormíamos qualquer coisa, para depois voltarmos à carga em mais um dia no areal e nas ondas.
Por tudo isto e muitas outras coisas que não vêm agora ao caso, o Verão era uma maravilha. Era a hora de rever os amigos conhecidos noutros verões e que tal como eu, não falhavam as férias na santa terrinha (daqui a pouco já descobriram o local, e convém manter o “suspense” – tem mais piada).
Quase tudo agora está a mudar, apenas tal como eu, os meus amigos continuam fieis ao local escolhido para as “vacances”.
Onde dantes existia uma praia praticamente deserta, frequentada quase em exclusivo pelos locais, já que o acesso tinha que ser feito de barco ou a nado, agora essa mesma praia, é um autêntico resort de abastados, desfilando as suas jóias, carros e outros bens que tanto status lhes dá.
Naquela zona exitem 3 praias. Esta era a mais “virgem”, e como tal, passou a ser moda.
A outra já era mais elitista, devido à Aldeia Turística situada em frente (a aldeia turística nasceu ali primeiro, só depois é que a praia ali foi construída), continua como tal.
Lá, quase todos se chamam Lourenços, Martim’s ou Bernardos. Zabelinhas, Kiki’s ou Manuxas.
Depois temos a outra, que também só lá conseguimos ir apenas de barco ou mandando braçadas até à outra margem. Essa outra, que não gostava muito, nem sei bem porquê, passei a gostar mesmo muito, talvez por não se ver tanto “queque”e por não me identificar NADA com a “escumalha fina” que resolveu invadir um local que estava tão bem sem eles.
Lamento ser assim tão anti-progressista em relação a este tema (juro, cruzando os dedos indicadores um no outro, enquanto os beijo), mas não consigo ver isto de outra forma.
Dando um exemplo da mentalidade de muito tuga que se julga acima dos outros, mas ao mesmo tempo não imagina as tristes figurinhas que fazem, assisti a um (quase) monólogo entre galegos, isso mesmo, mas daqueles que não são de Vigo, que vivem ali na zona do Douro ou por aí.
Estava eu descansadinho a fumar o meu paivante, quando numa casa perto da minha, alugada onde estavam meia dúzia de inquilinos da zona acima referida, se juntam mais uns quantos, acabadinhos de chegar da Galiza tuga.
Nisto, a matriarca da casa, uma senhora já com idade para ter juízo, praí com os seus cinquentas, vira-se para os recem-chegados e diz, de braços no ar, desmonstrando ainda mais a sua actuação (atenção que a citação da senhora é curta e pode não ter muita piada, mas a mim deixou-me sem reacção…).
- “Até que enfim que já chegaram. Isto aqui é um mundo à parte…” (e agora a parte final, para arrebatar) “Chegaram à terra dos Mouros…”

(Ao relembrar-me disto e estar a transcrever tão sábias palavras, continuo com aquele sorriso de censura azeiteira)
A pergunta que sou obrigado a fazer é…o que leva uma respeitável senhora de meia idade vinda do nuôrte carago, a fazer estes comentários gratuitos ?
Será que ela terá visto por terras algarvias alguns seres esverdeados, viscosos e baixinhos com as antenas a piscar?
Ou será que tão sábia senhora nunca terá saído da sua admirável aldeia, e aí sim, já faz mais sentido dizer que o Algarve é um mundo à parte?
Enfim, muitas outras perguntas se impunham, mas agora não me apetece.
Por estas e muitas outras razões, é que continuo a preferir ir almoçar ao “Casarão” ou numa tasca de à 50 anos atrás, em que há peixe seco ou ovas dentro da arcas, e que são atiradas para cima do balcão quando as peço.
Piada tem continuar a ver as traineiras a chegar e a abalar para o mar.
Piada tem ir para a praia num barco que mais parece um poliban a remos, e remando contra a maré.
Piada tem ir apanhar bocas de cavalete e no fim, vir de lá com lama até nos tintins.
Piada tem ir-se ao pão quente às 2h da manhã e comê-lo com manteiga até rebentar o estômago.
Piada tem comer sardinha em cima do pão (cá agora de faca e garfo…)
Enfim, podia ficar aqui o resto da semana a debitar motivos para desejar que o tempo na Santa Terrinha não evoluísse.
É um caso à parte.

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